Natal tem as cores de um mês feliz. Quantas boas memórias nos invadem e trazem o sabor e as delícias da infância!
A casa enfeitada, a mãe no preparo dos quitutes, o cheiro do peru no forno, o pai a esperar os convidados. Na noite do Natal, casa cheia e feliz, rostos amigos e familiares, comilança, troca de presentes, palavras de carinho e a espera do Papai Noel.
Em 1989 papai já não estava presente. O Natal foi comemorado com lágrimas e perguntas que nunca tiveram respostas. Mas, as cores e cheiros eram os mesmos, permeados por instantes de saudade. Aos treze anos descobri que as comemorações natalinas podem ser amargas e doces ao mesmo tempo.
A partir de 1990 começamos a comemorar o Natal com a família da mamãe. Tias, tios, primos, risos e gargalhadas, novos cheiros e sabores. Os primeiros netos trouxeram alento ao coração da mamãe, e ela tornou a desfrutar a vida com a avidez de uma adolescente apaixonada. As festas eram alegres, cheias de música, vinho, histórias, brincadeiras de crianças, mensagens de ânimo.
Infelizmente, 1999 foi nossa última ceia. Lembro-me bem da casa toda enfeitada, mamãe empenhada no preparo das iguarias, o som da chuva fininha a cair, as palavras de carinho, a oração sobre o amor feita por mamãe. Em Outubro de 2000, ela teve um encontro repentino com a morte. Aos 24 anos descobri que o Natal pode ter o cheiro insuportável dos que morreram, as palavras de esperança podem tornar-se inaudíveis, as luzes sem brilho.
A dor amenizou com o passar dos anos. Veio o casamento, vieram os filhos e também os novos "Natais". Agora, enfeitamos (eu e o Dá) nossa árvore com a ajuda das crianças. Compramos os presentes, cozinhamos juntos, enviamos cartões às pessoas que amamos, ouvimos Christmas Songs da Diana Krall, e comemoramos com quem está por perto. Brindamos juntos nossos sonhos, lembranças e conquistas.
Tudo isso para dizer que o cenário mudou, as pessoas amadas se foram, experimentamos dias bons e maus, mas o Natal... ah.... o Natal continua e sempre será maravilhoso. É nostálgico, cheio de sonhos de criança, repleto de esperanças inocentes, mas é inevitavelmente maravilhoso. Amamos essa época, a magia, as fragrâncias, os odores, as canções, os símbolos, o querido Jesus, os recados cheios de amor, o tintinar das taças com som de festança, os presentes e as presenças. Amamos as comemorações exageradas, fartas e emotivas. Amamos o dia seguinte, a comida requentada, a casa bagunçada, a preguiça com gosto de vinho amanhecido.
Imbuídos desse sentimento, desejamos à todos vocês que tem nos acompanhado nesse sonho, um Natal de alívio para quem está cansado, um Natal de felicidades para quem está satisfeito, um Natal de vigor para quem está desanimado, um Natal de alento para quem está triste. Não deixe sua árvore sem enfeites, não deixe o sonho de menino(a) esvaecer. De fato, nada muda ao nosso redor, mas nós podemos mudar algo dentro de nós mesmos. Firmes em nosso sonho... o Canadá. Firmes nessa árdua caminhada... que é a vida.