Pais aprendem com filhos mais do que filhos com pais. Quem aceitou o desafio de criar um filho sabe disso.
Minha caçula tem nos ensinado diariamente com sua determinação e ímpeto de superação.
Já vou explicar.
O Enzo, nosso filho mais velho, seguiu o ritmo de aprendizagem progressivo, no desenvolvimento intelectual e físico. Esperávamos esse comportamento também da Aimê.
Até pisarmos em terras canadenses, apesar de termos uma rotina diária de leitura, brincadeiras e estímulos, a Memê ainda não escrevia o próprio nome, não fazia desenhos figurativos (apenas rabiscos) e não se interessava por esportes, mesmo sendo muito ativa.
Apesar dela ter apenas 4 aninhos, nos preocupávamos, de certa forma, com o interesse dela por essas atividades. Sabemos que cada criança tem um ritmo, e não devemos pressioná-las. Mas por outro lado, o desenho, a prática de esportes ou a leitura poderiam ser uma forma de identificação e interação com outras crianças.
Quando chegamos aqui, o Enzo foi imediatamente encaminhado à uma escola, enquanto a Aimê ainda está à espera do começo das aulas. Obviamente, ele começou a falar inglês, e ela sentiu-se incomodada por não poder se comunicar.
Apesar de ser extrovertida, as frustrações foram muitas: não fazer amizades mais profundas, sentir-se rejeitada, comparar-se ao irmão. E como doía, apesar de sabermos que pequenos sofrimentos os preparam para a vida, vê-la chorar e entristecer-se por não sentir-se aceita.
Mas, felizmente, ela encontrou o caminho da superação. E provavelmente seu desenvolvimento foi "relâmpago" por uma necessidade pessoal de incluir-se, fazer parte do grupo.
Quando completamos 3 meses aqui, a Aimê simplemente "desabrochou. Pegou um papel e fez seu primeiro desenho figurativo, cheio de detalhes. Assim:

Num dia rabisco, no outro um desenho. Como assim? - pensei!!!! Os rabiscos ganham complexidade conforme eles crescem, e não literalmente "de um dia para outro".
No outro dia falou:" Mãe, me ensina a escrever?" E foi assim. Escreveu seu nome, depois aprendeu o do irmão, o nosso. Pediu uma bicicleta. Aprendeu a andar antes do Enzo. Começou a falar algumas frases em inglês.SUPERAÇÃO!
E agora está feliz da vida, desenha todos os dias, esforça-se para se comunicar. Fala em Inglês, Inglês-Português, faz gestos, pede para a gente traduzir. Mas não perde uma oportunidade de se relacionar, de brincar, explorar. Quer aprender mais, quer saber mais, quer entender o mundo.
E nos ensinou que nada é difícil demais. Que a tristeza às vezes é inevitável. Que os desafios existem, e são oportunidades de se viver experiências transformadoras. Experiências que nos fazem mais humanos e redivivos.
Obrigada Aimê...
""Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe"
(Almir Sater)